Memória

Yes, nós sempre teremos Braguinha

Por Luís Pimentel - 28/03/2017

Na tentativa de reeducar os ouvidos, bombardeados pelo batuque cada vez mais acelerado dos sambas-enredo, no último Carnaval que passei no Rio de Janeiro eu fui ao Bip Bip, em Copacabana, ouvir a turma que promove a mais linda roda de marchinhas da cidade, toda sexta imediatamente anterior aos dias de folia, cantar: “Lourinha, lourinha/Dos olhos claros de cristal/Desta vez em vez da moreninha/serás a rainha do meu carnaval”.
Pois é, nós temos Braguinha (aqui, no traço de Amorim). E sempre teremos (ele faria 110 anos neste 29 de março de 2017).


Linda loirinha foi composta há mais de 80 anos e é cantada até hoje. Na época, 1933, não se falava em loira burra e Braguinha queria fazer uma média com as representantes da espécie, que no ano anterior ficaram enciumadas com o derretimento do compositor para com as morenas: “Moreninha querida/Da beira da praia/Que mora na areia todo o verão/Que anda sem meia em plena avenida/Varia como as ondas o teu coração”.


Carlos Alberto Ferreira Braga nasceu no Rio de Janeiro, em 1907. Filho do gerente da fábrica de tecidos Confiança, começou a cantar e a compor profissionalmente ao lado das melhores companhias, no Bando dos Tangarás: Almirante e Noel Rosa (com quem compôs a angelical “As pastorinhas”). Uma brincadeira de grupo obrigou a que todos adotassem apelidos de passarinhos. Braguinha escolheu João de Barro, único que pegou. Com esse pseudônimo assinou várias canções. Qual teria sido o apelido de Noel? “Canário”, provavelmente não; o poeta da Vila não cantava bem.

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Sempre perto dos bons, Braguinha teve ótimos parceiros. Entre eles, o gigante Pixinguinha, de quem musicou Carinhoso (a pedido da atriz e cantora Heloísa Helena, que queria colocar a canção no musical Juju e Balangandãs, apresentado no Teatro Municipal). Também esteve ao lado das boas e teve em Carmen Miranda uma intérprete e amiga de primeira hora. A pequena notável gravou Primavera no Rio (“O Rio amanheceu cantando/Toda a cidade amanheceu em flor/E os namorados vêm pra rua em bando/Porque a primavera é a estação do amor”), revelando o compositor João de Barro, até então desconhecido.


Versado com desenvoltura na música e na letra, mesmo assim Braguinha teve alguns parceiros (o mais profícuo foi o médico Alberto Ribeiro) e com eles produziu delícias do nosso cancioneiro, como Touradas em Madri (que levou a torcida brasileira ao delírio no Maracanã, na dolorosa Copa de 1950, no jogo contra a Espanha), Yes, nós temos banana, Chiquita bacana, Balancê, Cadê mimi? e tantas outras.


Às voltas com problemas de saúde, Braguinha não acompanhou a mais um carnaval de correrias e sambas acelerados. Mas tem estreita ligação com a folia e em 1984 sua vida inspirou o enredo Yes, Nós Temos Braguinha, que deu à Mangueira o título de campeã do carnaval daquele ano. Morreu em 2006, um ano antes do centenário.


 

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