Especial

Dona Ivone Lara e a questão do racismo

Por Sergio Santos - 04/06/2018
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Quero falar de racismo. Quero falar sobre a questão que envolve Fabiana Cozza. Desculpem-me mas é um texto um pouco longo. Necessita ser. Sou um mulato. Para ser mais preciso, sou um mulato cuja porção negra ancestral que vem de minha mãe carioca, tem origem no povo Tikar, de Camarões, no ocidente da África Central. Assim está escrito no meu DNA materno. Meu pai é um branco alagoano. Daí sou um mulato brasileiro. Nós, os mulatos, somos aquilo que o IBGE considera como pardos (definição que em si já é um erro, raça não é cor de pele) e somos, pelo última pesquisa do próprio IBGE, a maioria da população brasileira. É interessante notar que nessa pesquisa a cor é autodeclarada pelo entrevistado. É ele que define a cor que tem. Em 2016 os que se definem brancos deixaram de ser maioria, representando 44,2% (queda de 1,8%). Os que se definem pardos passaram a representar a maior parte da população (46,7%) - aumento de 6,6% - e os que se declaram pretos são agora 8,2% do total de brasileiros. Porque digo isso? Para constatar que, estatisticamente, ainda que esses números possam não corresponder à realidade, somos um país que começa ainda timidamente a se enxergar como verdadeiramente é racialmente, entendendo que raça não é cor de pele, e assumindo a porção da negritude que herdamos da nossa formação étnica. Uma herança, aliás, magnífica que deveríamos todos os dias louvar!
Se herdamos nossa mistura desde a escravidão, a persistência odiosa do racismo é uma outra herança, essa a mais maldita de nossa história escravocrata, nós que fomos os últimos a banir a escravidão formal. Para os negros a opressão cultural e o impedimento do exercício da cidadania é brutal, e o racismo não escolhe a pureza étnica daqueles a quem oprime. Não são os pretos mais pretos no degradê da melanina os mais excluídos. São os pretos mais pobres! Das 16,2 milhões de pessoas vivendo na pobreza extrema (cerca de 8,5% da população!), com renda igual ou menor a R$ 70 por mês, 70,8% são negras ou pardas. A segregação racial continua a estar entre as mais profundas causas de nossa desigualdade social. Causas!! Como bem já dizia Malcom X, não pode haver capitalismo sem racismo. E a segregação racista busca encobrir esse fato vergonhoso com o mito da democracia racial. Para funcionar, esse mito precisa ser abrangente, precisa turvar a realidade de que a questão étnica é um fator que define a diferença sócio-econômica que envolve a maioria da população, que não por acaso se declara negra ou parda!
Desculpem o trajeto longo para chegar na polêmica que envolve a querida Fabiana Cozza. Fabiana é uma mulata. A nós, mulatos, cabe se identificar com um dos dois lados da questão exposta acima. Nós mulatos enfrentamos cotidianamente o preconceito. Eu, mesmo que não tendo melanina total, o enfrento desde a infância. Desde muito escolhi, através da arte, a minha maneira de combate: afirmar a grandeza que há na negritude. Entre meus discos, um se chama justamente Mulato; outro é o Áfrico que conta a trajetória da cultura de raiz africana no Brasil; e outro Iô Sô, inteiramente dedicado ao congado. Da mesma forma fez a mulata Fabiana. As duas últimas vezes que a vi, aliás, foram no palco. Uma cantando de forma contagiante e magnífica a obra do negro cubano Bola de Nieve. A outra foi dividindo comigo o palco, quando a convidei pra cantar Quilombola, uma canção minha e de Paulo César Pinheiro, cujo nome diz tudo. Fabiana escolheu seu lado nessa questão, pela sua identificação com o samba e com a cultura negra, desde sempre, como poucas artistas brasileiras souberam ou escolheram fazer!
No meu modesto ver, há duas distorções que envolvem as críticas que terminaram por fazer Fabiana se retirar da representação de D. Ivone. Primeiro é a distorção política. A política identitária tem um forte viés individualista e por isso tende sempre a levar ao divisionismo. Sendo a segregação exercida de forma única, a atitude identitária divide os que são segregados e enfraquece a unidade da ação no combate à segregação. Marielle, por exempo, era 100% negra? Foi morta pela cor da pele, ou por sua luta conter a defesa dos mulatos e negros favelados da opressão degradante de um sistema complexo que os exclui? A outra distorção é a que toca a própria arte. O campo da representação artística exige tal grau de fidelidade étnica? Só os muito negros podem se expressar artisticamente nos sentido de fortalecer a cultura negra, em um país etnicamente miscigenado? Meu Áfrico é ilegítimo? Paulo César Pinheiro é ilegítimo? Foi ilegítimo Vinicius ao compor com o mulato Baden os Afro-Sambas? São ilegítimas as fotos magníficas de Pierre Verger, que além de branco é estrangeiro, sobre a cultura negra da Bahia? E da mesma Bahia, seria ilegítimo o mulato Caymmi ao descrever a negritude de sua terra? Ou Jorge Amado? Usando o mesmo conceito, poderia Guimarães Rosa ter universalizado o sertão das Gerais, sem ter nascido sertanejo? Não foi o nosso samba ele mesmo uma construção majoritária de negros, mas também de mulatos? E o que dizer de Noel? Chico? Indo mais longe ainda, quem é capaz de afirmar a integral negritude da própria D. Ivone Lara? No campo da representação artística, acho importante a questão do protagonismo dos negros no contar de sua própria história. Porém no meu ver, a exigência desse protagonismo na forma da pureza étnica é bastante questionável, uma vez que a própria construção dessa identidade cultural foi erguida sobre a mistura que predomina em nossa formação.
Tudo o que foi dito acima pode ser questionado, é apenas minha opinião. Só há uma coisa inquestionável: Fabiana jamais seria ilegítima representando D. Ivone Lara. Há outras artistas mais negras que ela que poderiam representar melhor D. Ivone? Pode ser que sim, quem sabe? Mas isso não tiraria em nada a sua legitimidade. Quanto à sua capacidade artística, é até ridículo comentar. Sua atitude de renúncia ao papel foi de uma enorme generosidade! Priva a ela pessoalmente de uma grande possibilidade artística, além de nos privar da qualidade que certamente sua interpretação teria. Mas ao mesmo tempo sua renúncia nos possibilita debater sobre a miséria que é o racismo no Brasil! Fabiana, te abraço irmanado em negritude e arte!

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