Artigos

Os enigmas de Waldick Soriano na cidade natal

Por André Koehne* - 05/04/2011

Eurípedes Waldick Soriano nasceu em Caetité, Bahia, a 13 de maio de 1933. Filho de Manuel Sebastião Soriano, garimpeiro de ametistas; quando era pequeno viveu o drama do abandono do lar pela mãe. Iniciou a carreira artística com o lançamento, em 1960, do primeiro LP: Quem és Tu. Fez enorme sucesso no começo dos anos 1970, quando protagonizou dois filmes e vários comerciais. Gravou aproximadamente 900 músicas, além de haver composto cerca de 500. Dono de voz única, sua música é dita por vezes como “piegas”, e chega mesmo a ser o símbolo do estilo que hoje, já sem a pesada conotação pejorativa de antigamente, chama-se de brega – e que na verdade passeia pelos boleros, tangos, choros, etc. Após ter diagnosticado em 2006 um câncer na próstata, Waldick veio a falecer dois anos depois, em 4 de setembro, no Rio de Janeiro.

Alguém dizer que nasceu em Caetité é, para os que conhecem o Waldick de velhos tempos, pertencer a toda parte; não há quem, com mais de trinta, nunca tenha ouvido aquela sua voz única, de timbre inigualável. Ou, se a pessoa fingir não saber quem é, fica impossível não se identifique com o sucesso de 1974 – “Eu não sou cachorro não”...

Ser caetiteense, como ele, contudo, é deparar-se com uma infinidade de facetas misteriosas do ídolo que despontou para o Brasil nos anos 60 do século XX; sobretudo porque em sua cidade natal viveu ele uma relação de amor e ódio, altos e baixos, culminando com a consagração quando muitos começavam a esquecê-lo e, finalmente, numa enorme saudade...

Publicidade

Para os que não sabem, Caetité não é mesmo uma cidadezinha comum. Bem antes do Waldick já dizia o engenheiro Teodoro Sampaio (o que dá nome à avenida paulista, não a dupla sertaneja) num livro, em 1880, que tal cidade “se assemelha ao viajante qual a Corte do sertão”. Aqui nasceram figuras ilustres, como Anísio Teixeira (já estampou uma cédula de nosso dinheiro), três governadores da Bahia, um presidente da UNE, dentre outros tantos nomes. É em Caetité que se passa a ação do romance Sinhazinha, do Afrânio Peixoto – baseado num drama vivido aqui por uma tia do poeta Castro Alves...

Pois, neste rincão sertanejo e baiano, cheio de nobreza, uma das antigas famílias da terra é a Soriano.

Era Soriano o primeiro marido da mãe de um deputado do Império – o Cezar Zama (que dá nome a uma avenida no Rio de Janeiro). E já mexiam, os Soriano, com mineração desde tempos imemoriais.

Mas o Soriano que foi Waldick não era da “nobreza” da terra – afinal ele nascera no distrito de Brejinho das Ametistas – algo que somente os que vivem em sociedades cheias de castas poderá compreender como faz diferença...

Assim, Waldick era um sujeito que guardava uma origem humilde, sim, mas tinha no sangue a raiz da “nobreza”. Era a figura do bruto, na imagem que se divulgava, mas capaz de compor versos como “Hoje que a noite está calma / E que minh’alma esperava por ti / Apareceste afinal”... (quantos hoje escrevem “minh’alma”?)

Waldick saiu da terra natal, e ele mesmo ajudou a construir histórias em torno de si que fazem-no ora mito, ora realidade. Mesmo em Caetité, naquilo que lá viveu, a fantasia mistura-se à verdade: por exemplo, ao dizer que tinha raízes gregas na família – quando era de origem espanhola. Ou, no plano meio feérico da academia, a obra “Enciclopédia do Cinema Brasileiro”, de Fernão Ramos e Luiz Felipe Miranda, que traz lá um Waldick no elenco do filme “A Sombra da Violência” de 75, confundindo-o com o obscuro cantor Waldir Floriano, na verdade seu cover...

Escrever um esboço biográfico dele para a Caetité natal é uma tarefa a que nos propomos, para o futuro. Não temos uma pretensão tão grande quanto ele – pois Waldick é um nome que pertence a todo o Brasil, e não apenas à sua terrinha. Mas é, sim, a nossa intenção fazê-lo naquilo em que o ídolo viveu na sua cidade. Pois Waldick influenciou muita gente...

Mesmo o grande jornalista e escritor Luís Pimentel, criador (mentor?) da revista – hoje este portal – da Música Brasileira – revelou certa feita que Waldick foi um dos cantores que lhe despertaram a apreciar nossos valores musicais.

Assim, se você tiver algo a nos contar, pode entrar em contato conosco. Tudo faremos para manter acesa a lembrança deste grande boêmio que se eternizou na música brasileira, e fez dela algo que, de fato, cantou à alma de nossa gente.


*André Koehne é advogado, escritor e historiador. Membro das Academias de Letras de Caetité, Goiânia e do Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros.

Publicidade