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Ernesto Pires, pra alma relaxar

Por Rogério Lessa Benemond - 26/10/2010

Mestiço é que é bom, já dizia Darcy Ribeiro. A máxima do mestre nunca esteve tão atual nestes tempos em que muitos se arvoram a jogar pedra no que pensam ser a intolerância alheia sem olhar para a própria. Pois bem, no Mestiço, segundo CD do cantor e compositor Ernesto Pires, que será lançado no próximo dia 09 de novembro, terça-feira, no glorioso Teatro Rival, não tem propaganda enganosa. Estão juntos e muito bem misturados diversos gêneros afrobrasileiríssimos como o afoxé, o samba canção e a pisada, que é um canto de trabalho em forma de partido alto.

Tem Delcio Carvalho (o eterno parceiro de Dona Ivone Lara) e o portelense Ratinho, nas faixas Dar um tempo e Nasci para a música, respectivamente. Mestiço vai de Sergio Natureza (Na bateia) e também de Sergio Fonseca (Deixe eu ser feliz) sem perder a harmonia, garantida desde a primeira faixa (Bate tambor) pelo inconfundível violão percussivo de João de Aquino, músico que Ernesto muito bem classifica como “uma usina de sons”.

Aquino, além de tocar violão, costurou com carinho os arranjos, que saem do lugar-comum das gravações de samba de hoje em dia. Os vocais, por exemplo, não se restringem à mera repetição. João põe a galera para trabalhar, batendo no peito, pisando forte no chão. Por sinal, se como diz aquele eterno ministro, o baião “vem de baixo do barro do chão”, no disco de Ernesto não podia faltar um ótimo exemplar do gênero: Pilão de Baobá (parceria com Toninho Nascimento).

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Sem bala no pente, nessa contracorrente, como diz na excelente Contracorrente (esta ele fez sozinho) Ernesto faz por merecer a linda concepção visual que lhe presenteou o genial Mello Menezes, com direito a foto de Henrique Sodré. O feijão e o arroz retratados no disco, e que tão bem ilustram a nossa cultura, expõem com maestria a diversidade contida no trabalho, sonho que o cantor e compositor esperou uma década para realizar.

Achou pouco? Então presta a atenção nos craques que realizam os arranjos saídos da usina de sons do mestre João de Aquino: Márcio Almeida no cavaquinho, Carlinhos 7 Cordas no instrumento que lhe empresta o nome, Eduardo Neves na flauta e no sax, Roberto Marques no trombone, Anderson Rocha no piano, Marcelo Caldi no acordeão e as feras Marcos Esguleba, Trambique e Cesinha nas percussões. Tudo misturado (mixado) com a sensibilidade de Jadir Florindo (ex-Zeca Pagodinho, por exemplo), um dos melhores do Brasil.

Ernesto conta que Mestiço começou a nascer em julho de 2009, quando tirou algumas músicas do baú. Ele queria um disco autoral, já que no primeiro (Novos quilombos) teve a generosidade de abrir para outros compositores. Desta vez convidou gente de quem sempre foi fã e conseguiu fazer um belo trabalho, apresentado por ninguém menos que Aldir Blanc. “Na grande área, às vezes minada, dos terreiros e quintais onde o couro come, Ernesto pisa miudinho, com classe”, diz Aldir, batendo o martelo e encerrando a questão.

Então, não deixe de ouvir o CD Mestiço, de Ernesto Pires. Se estiver no Rio no próximo dia 9 de novembro, dê um pulinho no Teatro Rival para o lançamento. É massagem pra alma relaxar.

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